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      POR QUE PRATICO YOGA - Texto da profa. Rosane Oliveira
      
          

Quando fazemos yoga conhecemos os limites e potencialidades do nosso corpo físico. Aprendemos a nos respeitar e movimentar melhor. Podemos corrigir vícios posturais, e até conquistar mais alongamento e flexibilidade. Reaprendemos a respirar, a aumentar nossa capacidade respiratória, a fechar os olhos, fazer silêncio. Meditar.

É preciso de dedicação para ser um bom praticante de yoga. Precisamos exercitar a disciplina também. Ser disciplinado com nossa prática pessoal, com a boa execução de nossa série de exercícios, respirações e posturas, com o horário e duração da aula. Tudo isso é importante.

Mas a prática de Yoga propõe mais.

Um dos significados da palavra Yoga, em sânscrito, é unidade, integração. Yoga é um caminho para dentro de si mesmo, que, ao mesmo tempo, nos leva para o outro, o que conhecemos e o que não conhecemos. Através do Yoga, podemos vivenciar uma integração conosco, com tudo e todos a nossa volta. Podemos perceber que somos vida.

Fazer yoga só faz sentido se tentamos vivenciar e aplicar em nosso cotidiano tudo o que experimentamos na aula. Mais do que fazeryoga é preciso praticaryoga.

Praticar Yoga é conquistar flexibilidade, maleabilidade não apenas no corpo físico, mas, principalmente, em nossas ações e pensamentos, quando a atitude de ser flexível for necessária conosco e com o outro, para que não endureçamos. É buscar ter calma e serenidade diante dos diversos desafios que surgem ao longo do dia (e surgem, vão continuar surgindo), através da respiração suave, profunda e consciente, através da observação do silêncio interior. É ter equilíbrio, paciência e força interior para superar as dificuldades e desânimos que, vez por outra, nos alcançam - qualidades que podem vir da dedicação, persistência e disciplina mental. É poder viver com leveza, apesar dos pesares.

Yoga não termina quando saímos da sala de prática. Pelo contrário. O Yoga deve continuar em nossas vidas, nos nossos cotidianos, nas nossas relações, nos lugares que frequentamos.

Para mim, Yoga é uma escolha, um estilo de vida. A sala da prática é o lugar onde me alimento e me fortaleço. Um dos lugares onde posso me nutrir. É onde posso encontrar pares, companheiras e companheiros de caminhada, e compartilhar meus aprendizados e transformações internas (nem sempre fáceis de aceitar), mesmo que no silêncio da aula. Partilhas também se fazem com olhares, presença solidária, um dando força pro outro, um apoiando o outro, sem que palavras precisem ser ditas.

Yoga é unidade com a vida, comigo, com o outro. Com você. Yoga não termina, mas continua pela vida inteira.



       CANÇÃO DO MAR - Texto da profa. Eliane Oliveira – 27/01/18

           

Uma cena bonita da maternidade: Leon acorda, já estou no sofá. Chamo ele pra deitar no meu colo, ele coloca a cabeça com o ouvido perto do meu coração e se acomoda. Levanta, vira pra mim e diz: "mamãe, sabia que quando a gente coloca a cabeça aqui, a gente ouve o som do mar?” (mensagem que recebi de Rita Lemgruber, em 23/01/18 e me inspirou de escrever esse texto)

Leon é muito sabido. Reparou o som do mar no coração de Rita. E, não foi a primeira vez. Tanto é que, desta vez, por saber, quis ensinar. Leon lê OM. Aquele som do mar que soa dentro do som do mar. Que permanece ecoando incessante no centro do centro de suas ondulações. Nota só. A mesma. A que sempre foi, sem nunca ter nascido nem morrido. O Verbo. O colo. O eterno tom sustenido que vibra sem precisar que algo de fora dele, em contato com ele, provoque o seu som. Anahata (palavra sânscrita e representa o quarto chakra, localizado na altura do coração). Quando a gente coloca a consciência ali, como Leon a cabeça ao peito de sua mãe, estamos em Casa. Na casa, tem peito cheio de leite e amor onde posso me abandonar de olhos fechados, sem medo de viver, porque sei que tudo está tudo bem. Mesmo que o mundo pareça que vai desabar e que eu tema que desabe, posso lembrar, pela canção do mar no meu coração, do mar eterno e infinito do coração da vida. Esta que passa mas não acaba.

Noutro dia, o mar estava calmo e eu me deitei sobre suas águas serenas como fazia quando criança. Olhos no céu. Sim, pude olhar para o céu. Estava azul. Esqueci-me do corpo. Não tinha mais corpo. Por uns segundos, diluí-me em mar e em céu. Tudo azul. Eu estava no mar olhando pro céu, ou o céu era o mar, e eu olhava acima do mar pro mar do céu lá embaixo? De repente, senti que era a mesma coisa. Baixo e cima, céu e mar, ar e água, presença do corpo e ausência do corpo. Não tive medo de vir uma onda e quebrar sobre mim. Porque, no mar, não havia ondas, nem mim havia mim. Colo de mãe.

Mãe, mãezinha,
no seu colo jamais duvido de que tudo é UM.
Afaga-me a cabeça, mãe, enquanto ouço a canção do mar que vem do seu coração.
Ensina-me a aprender o que já sei”

Ao Leon e à mãe dele, minha amiga Rita Lemgruber,

Ao Theo e à mãe dele, Julieta Roitman, minha amiga e professora de Yoga,

à minha mãe, meu colo, Maria José.

Com amor, Eliane



ESCUTATÓRIA - Texto de Rubem Alves


               

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise…) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada…“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes.

A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino…“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto…

(Alves, Rubem. In: O amor que acende a lua, pág. 65.)


      O DIA DO FINAL DO MUNDO (23/09/17) -
      por profa. Eliane Oliveira

                

Disseram que seria hoje. Que o mundo acabaria. Não acabou. Pelo menos até agora, 16h45, quando começo a escrever esse texto. Pode ser que ainda aconteça mais tarde. Se bem que, se fosse hoje, os ventos estariam mais fortes. Amanheceu meio esquisito, nublado, cinzento. Mas, depois o sol abriu. Não deve ser hoje. Os astrólogos anunciaram o alinhamento entre três planetas e nove estrelas. Fenômeno raro no céu que pode ser um sinal do advento de algo raro. A volta de Cristo, o Apocalipse, o tempo da eleição dos justos, ou, para os mais reservados, a abertura de algum portal espiritual que nos dará acesso a um novo tempo: o tempo da luz e o fim da escuridão. Opa, é bom falar em luz! Estamos precisando. Ativa a esperança. Dá vontade de insistir na vida, apesar dos pesares.

Por via das dúvidas, aproveitando que deu tempo de acordar de manhã cedo antes de acabar o mundo, sentei pra meditar, como faço todos os dias. O assunto me trouxe a vontade de rever a vida mais radicalmente do que já faço sempre. Na hipótese do final de tudo hoje, como está minha vida? Como estão meus apegos? Porque nada que tenho materialmente (afetos, amigos, família, casa, trabalho, corpo, dinheiro) importa tanto assim se tudo acaba. Qual osso eu ainda não largo? Gostei da ideia do portal que se abre para um novo tempo. É pedagógico imaginar uma passagem de hoje para um outro dia que será todo outro, mundo de luz em que finalmente estarei liberta da cegueira da ignorância, que me traz medo, culpa, intolerância, egoísmo, impaciência, fantasia, apego. Pois bem. "Chegou esse dia", eu mesma me disse a mim com olhos fechados em meditação. Chegou o dia do "Chega!". Do "Basta". Do limite. Como um ponto final saturnino. Dia em que eu atravesso o portal da fantasia para o da realidade e aceito a vida como ela é, pois o que é, é o que deve ser. Se não fosse, não seria. Eu goste ou não goste. Sem espernear. Sem fazer malcriação. Calma-mente. Recebo o "irmão limite", como diria São Francisco de Assis, limite que diz "adeus, até nunca mais", considerando, obviamente, que "nunca mais" não existe, pois o que vai, sempre fica, porque a vida é uma mistura de experiências, memórias, histórias, vivências absorvidas numa síntese. Eu não sou a mesma após me encontrar com você. Nem você é o mesmo após se encontrar comigo. Somos euvocê”, vocêeu. Ficamos juntos quando vamos, não nos separamos. Entretanto, vamos, porque a vida é uma partida desde que começa. Ela vai. Ela segue. É um ir permanente, cheio de impermanências. Podemos até querer controlar esse curso, mas não conseguiremos. É natureza. A ordem que nos rege.

O caminho é pleno de pequenas mortes, pequenos finais, pequenos apocalipses. O caminho é pleno de nascimentos, portais para outras e novas vidas na nossa vida.

Sei que não fiquei nervosa com a possibilidade de tudo acabar. Moro perto do Aterro do Flamengo. Pensei: se houver um tsunami, nem vai dar tempo de ver a onda. Quando vir, já fui. Quer dizer, " flui ".

"Há um dito tibetano que diz que a pessoa que não se lembra da impermanência ou da inevitabilidade de sua morte é como uma rainha. Nos tempos antigos, no interior das cortes reais, a rainha tinha de manter uma imagem de importância e de autoconfiança, e cumpria-lhe estar sempre muito preocupada com a defesa da própria reputação e autoimagem. Mas no seu coração ela trazia todos os tipos de desejos e medos - do prazer ou do desprazer do rei, do poder e da perda da sua posição -, de modo que sua atitude era essencialmente de simulação, com a finalidade de proteger-se. Da mesma forma, podemos dedicar nossas vidas a um caminho espiritual num sentido extremo, embora possamos ter ainda, ocultos, inúmeros desejos - de poder, de posição, de louvor. Não nos lembramos da impermanência nem da certeza da morte e, assim, não podemos nos proteger contra os nossos desejos. Mas quando compreendemos a impermanência de nossas vidas, podemos nos adaptar mais prontamente a todas a situações e não nos tornamos agarrados a elas, nem somos arrastados por elas". (Tarthang Tulku, In; Gestos de equilíbrio, Pensamento: São Paulo, 1977)


DE CABEÇA PARA BAIXO - Por profa. Rosane Oliveira

                       
                    

Sempre pensei em como são parecidas a postura do Yoga chamada “Sirsasana” (invertida sobre a cabeça) e a carta do Tarot de Marselha chamada “O Pendurado".

Sirsasana, a posição invertida sobre a cabeça, é seguramente um dos asanas mais desafiantes na prática yóguica. Salvo as sempre possíveis exceções, acredito que, não só eu, mas a grande maioria dos praticantes iniciados sente dificuldade em executar o Sirsasana, uma vez que o nosso corpo não está inteiramente programado para essa posição e que aprendemos desde cedo, pela cultura racionalista em que estamos inseridos, que é preciso “botar a cabeça no lugar” e “não perder a cabeça”, “deixar os pés no chão”, significando manter a mente racional no controle da vida. 

Meu interesse pelo tema se deveu, principalmente, à dificuldade pessoal de ficar com o corpo invertido. Lembro-me que, quando criança, dava cambalhotas, mas não me lembro de “plantar bananeiras” ou “dar estrelas”. Pelo contrário, nessa parte da brincadeira, eu ficava apenas observando, tentava, mas o pulo saía pela metade, sem ficar totalmente de cabeça para baixo e, desistindo, passava logo para um outro entretenimento. Curiosamente, só resgatei essa lembrança quando comecei a prática de Yoga, pois nunca, em meu cotidiano de adulta, fui solicitada objetivamente para que meu corpo invertesse, literalmente falando. 

Ao me deparar com o Sirsasana no Yoga e ao saber que esta era uma postura presente no yoga que eu teria que praticar, fiquei angustiada. Voltou-me um medo esquecido, que estava inconsciente por muito tempo. Mas, junto com esse processo, também percebi a possibilidade de elaborar aquelas sensações e, a partir da consciência delas, a oportunidade de buscar um entendimento pessoal sobre o que está por detrás do ato de inverter, organicamente, simbolicamente, psiquicamente. 

Sirsasana é uma postura complexa, que envolve o equilíbrio e a força muscular - sobretudo dos ombros, braços e costas, e músculos abdominais, que desempenham um papel central na sua execução. Porém, como qualquer outra postura de Yoga, abrange uma ativação da consciência de dimensões mais internas, psíquicas e energéticas. A posição vertical, pés plantados no chão, comumente, nos passa uma ideia de ação, atividade, controle, segurança, estabilidade. De normalidade. Podemos ir a qualquer lugar com nossos próprios pés. Enquanto isso, a posição invertida nos dá a sensação de vulnerabilidade, de instabilidade, inatividade, desarrumação. De anormalidade.  

Visualmente, Sirsasana é o mesmo homem pendurado da carta 12 do tarô, e, acredito que, simbolicamente, também é possível pensar algumas relações. 

A carta 12 do Tarot de Marselha apresenta um moço que está dependurado de cabeça para baixo, amarrado por um pé a uma forca, cujos postes são árvores truncadas, cada uma das quais com seis cotos que sangram onde os galhos foram podados. O homem suspenso observa o mundo de cabeça para baixo. As mãos estão atrás do corpo, e não sabemos se estão presas ou não, mas sugere uma postura em que o rapaz não possui poder para moldar sua vida nem controlar seu destino. O rapaz não possui poder pessoal, está submetido a uma força superior a ele. 

Segundo a estudiosa do Tarot, Sallie Nichols, à primeira vista, a figura do Pendurado pode parecer indefesa, mas, após uma observação mais cuidadosa, pode-se perceber que sua expressão não manifesta sofrimento, poderíamos até sugerir que ele parece estar meditando. Pode querer dizer, também, um novo olhar sobre uma determinada situação, uma alteração de comportamento, o abandono de hábitos; uma atitude de recuar para poder avançar; abandonar a tirania do controle mental sobre as situações. 

Porém, quando o Yoga começou a se integrar em minha vida, e com ele, as posturas invertidas, minhas impressões e sensações com a carta do Pendurado, e, com as posturas invertidas, também foram se modificando. 

Ficar de cabeça pra baixo, surpreendentemente, surgiu como uma experiência que podia ser agradável pra mim. Obviamente, não aconteceu de uma hora para outra. 

Comecei, então, a vivenciar um conjunto de experiências com essa postura. No início, o mais claro era o medo. Ficar pouco tempo na postura; perceber a mente trabalhar incessantemente, numa ansiedade de pensamentos e fantasias psíquicas como despencar da corda, cair no chão, quebrar o pescoço, como se quebra um galhinho de árvore fazendo um “trec”, “perder a cabeça”. Foram esses os primeiros pensamentos. Mas em seguida, essa postura também me trouxe uma outra surpresa: a de que sentia meu corpo mais forte, firme, ativo e não passivo como aparecia nas fantasias. Compreendi que também não era o caso de deixá-lo duro, rígido, porque assim, também não conseguia equilíbrio. 

Após fazer essa familiarização corporal, começaram outros tipos de sensações e interesses na postura. Instigou-me uma curiosidade de olhar tudo de cabeça pra baixo. E era apenas nisso que fixava minha atenção. Mas assim, também perdia o equilíbrio. 

Essa sensação passou a ser mais íntima, isto é, passou a ser um “sentir”, sem precisar olhar para as coisas, como antes. Da mesma maneira que o Pendurado, que vê as coisas de cabeça pra baixo, eu aprendi a ver o mundo a minha volta com outros olhos, sob ângulos diferentes. Pois, enquanto nós não experimentamos ver tudo invertido, tendemos que achar que há apenas uma única maneira de ver o mundo ao nosso redor. E, por esse ponto de vista, ver a vida "de cabeça para baixo" é uma experiência transformadora.

       Referência Bibliográfica: 

Nichols, Sallie. Jung e o tarô - uma jornada arquetípica. SP: Editora Cultrix, 1980.


      PEDRA DURA EM ÁGUA MOLE TANTO BATE ATÉ QUE FLUI -

      Texto da Profa. Eliane Oliveira (23/01/17)

       

(Profa. Eliane Oliveira - Maromba, Visconde de Mauá, RJ- Janeiro/17)

Se quiser chegar ali, você tem que seguir uma trilha já meio perdida no mato fechando. É bom ir pisando forte para afastar as serpentes que passeiam fagueiras no caminho. Vou seguindo às 9 da manhã, com o sol no céu e frio na sombra. Serra. Cheiro bom. Nenhum movimento humano. Eu sozinha, além, obviamente, do curupira, dos sacis e das fadas. E do rio. Com reverência, peço licença aos mestres da floresta pra entrar em sua casa.

(Pocinho é o nome “oculto” da cachoeira. “Oculto” porque se você pergunta para alguém da cidade onde ela fica ninguém conhece. Não vão lhe dizer. Existe para uns. Pocinho faz referência à outra batizada no aumentativo - Poção -, a que os turistas chegam facilmente porque são conduzidos por placas indicando a entrada: “Aqui, Poção”. Os moradores da Vila de São Miguel da Maromba, em Visconde de Mauá, sob a luz do arcanjo, conduzem a atenção dos forasteiros para algumas cachoeiras, deixando secretos os portais para os recantos mais virgens. Guardam sagrado).

Sento-me naquela pedra em que sempre me sento quando venho. Todo o ano venho. Pelo menos uma vez. Fico quieta. Faço nada. Observo o rio. As águas passam. Abraçam as pedras sem senti-las como obstáculos. Deslizam sobre e entre elas. Simplesmente. Se não encontram espaço, pulam em cascata ou infiltram-se na terra. Humildes. Lá vem uma folha escorregando pela queda da cachoeira. Entregue. Confiante. Um galho. Uma flor. Tudo corre fácil. Não há esforço. Só corre. Reparo no fluxo. Fluxo é quando flui. Penso na vida. Penso se eu fluo como o rio. Não, não fluo sempre. Mais vezes, quero controlar o movimento natural das coisas. Oponho-me à correnteza, insisto no que não corre. “Faço esforço” para que a coisa aconteça. Tento “forçar a barra” da realidade para caber nela o que eu quero ou que penso que seja melhor pra mim. Frequentemente, insisto no que desejo que a vida seja e não no que ela já está sendo. Brigo com ela. Faço malcriação. Não aceito. Não me conformo. Por que comigo? Por que assim? Entristeço-me. Embraveço-me. Faço bico. Cruzo os braços. Viro pedra. Daí, obstinada, teimo ainda mais no que já teimava. Ao contrário do rio, que reage às pedras em seu caminho com malemolência, flexibilidade, aceitação e leveza, eu reajo com mais dureza. “Dou murro em ponta de faca”. Imagine a cena assombrosa (ou pule essa parte) realizando a expressão citada: sangue escorrendo da mão perfurada pela ponta da faca, que você continua esmurrando, mesmo causando você mesmo um sofrimento pra você. Controlar, forçar, esforçar, torcer, esmurrar. A linguagem não esconde o tanto de medo que sentimos ao percebermos nossas impotências diante do curso misterioso da vida, que nem sempre obedece aos nossos quereres e saberes. Defensivos, fechamos os poros. Represamos. Mas, o rio continua a correr livre por entre nossas pedras, apesar da nossa birra. Como poetou Manoel de Barros, “Liberdade caça jeito”.

Noutro dia, minha aluna Lia, com seus 85 anos, me ensinava algo assim, em tom shakespeareano: “Ô Eliane, há mais mistério nesta vida do que alcança nosso entendimento raso. Tudo é mistério. A gente não sabe porque nasce, a gente não sabe porque morre, a gente não sabe por que as coisas acontecem. Elas só acontecem. Nem tudo podemos entender. Nem tudo podemos evitar. Nem tudo que queremos, teremos. Somos muito pequenos diante disso. O melhor a fazer é nos entregar, confiar, soltar”. Ela, uma yoguini que ama Jesus e frequenta a igreja católica, arrematou: “Faça sempre a Vontade de Deus, Eliane, que tudo dará certo”. Vontade de Deus é outra forma de dizer “segue o fluxo, minha filha”.

Não, não fluo sempre. Mas tenho treinado bastante com a ajuda de algumas tradições. Além do yoga, a arte é minha mestra nas malemolências. Na escrita, se insisto numa ideia para escrever um texto, se insisto numa frase, se insisto numa palavra, o texto estanca. Aprendi: já não mais insisto. Abandono. Desisto. Jogo fora. Deixo que ele se manifeste como quiser, usando-me como seu lápis. Só fazendo assim, ele me vem claro, forte, sincero. No piano, há músicas que não querem ser tocadas naquele determinado dia. Respeito. Passo para outras. Essas estão soltas. O som fica bonito. Um vizinho meu, idade avançada, cabelos brancos e ouvinte atento do meu piano, outro dia me disse carinhosamente que gosta quando as notas dão “aquela corridinha”. Ele deve estar se referindo ao dedilhado de alguma escala que lhe soa fluente e, por isso, o comove. Agora, na dança (eis uma revelação): entrei para a dança de salão. Já dancei outros tipos de dança (jongo, maracatu, afro, jazz, samba), mas essa é diferente: tem par. E, para se dançar com um par, é necessário entrega. Deixar-se ir. Você sente o fluxo da dança no corpo do outro junto ao seu. Quando a conexão com o outro se estabelece parece que ambos levitam. Bem, um dos meus pares de forró, que dança a mais tempo que eu, já me disse que estou craque. Fiquei envaidecida. Sinto que estou dando passos no aprendizado da fluidez. "Pedra dura em água mole tanto bate até que flui".

Corra, rio meu! Seja livre! Seja leve! Seja solto! Seja sábio! Seja água! Seja rio!


O mestre faz seu trabalho
e depois pára.
Ele entende que o Universo
é eternamente incontrolável
e que tentar dominar os eventos
vai contra a correnteza do Tao.” (Tao Te Ching, cap 30)


Por isso, o sábio age sem nada fazer
e ensina sem nada dizer.
As coisas surgem e Ele permite que venham.
As coisas desparecem e Ele as deixa ir.
Ele tem, mas não possui
e age sem expectativas.
Quando seu trabalho está feito,
Ele o esquece.
E por isso ele dura para sempre.” (Tao Te Ching, cap 2)

 

O Sábio observa o mundo
mas confia na sua visão interna.
Ele permite que as coisas venham e vão.
Seu coração está aberto como o céu.” (Tao Te Ching, cap 12)


“Você pode lidar com os assuntos mais vitais
deixando os eventos seguirem seu curso?” (Tao Te Ching, Cap 10)


“Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte". (2 Corintios, 12)


P.S. "Se ela estava sozinha então quem tirou a foto?", você pergunta. Não, não foi o curupira. :) A mana Rosane esteve no Pocinho comigo também.




        SOBRE CEBOLAS MÚSICA E YOGA - Profa. Eliane Oliveira

     13/11/16

             

O nome é Polifonia. Diálogo entre duas ou mais vozes.

Fácil de observar ao piano: a mão esquerda dedilha notas e ritmos diferentes daqueles dedilhados pela direita. Por um lado, as notas em cada mão são livres e diferentes entre si. Por outro, cada uma, preservando seu cada qual, mistura-se simultaneamente com outra, deixando de ser cada para virar um todo, voz maior, terceira - a própria música. Se eu erro uma única nota ao tocá-la, a música toda se ressente. Porque cada nota carrega em si a música inteira, apesar de ser nota. Cada nota é o todo, apesar de ser parte. Há um acordo entre os lados: para um inteiro de música existir, eles devem ser cúmplices. Dá pra imaginar o que ambos os lados pensariam se pensassem: vale a pena abrir espaços em mim mesmo para abrigar um outro totalmente outro em prol de uma síntese, que não mais será nem eu nem o outro, mas um nós, um completo - a música. Sobre as teclas, note: a cena seria apenas caótica se o resultado melódico e harmônico não fosse tão sublime. Música Barroca. Essas que toco são de J.S. Bach. Século XVII. Invenção a duas vozes.

Tenho predileção por elas.

Gosto do ato amoroso de suas notas, que, desapegadas de si, buscam o mútuo entendimento e se arrumam em harmonia, apesar da sua pluralidade. A combinação que criam juntas é uma essência, um núcleo, um algo que resta como mais importante para as duas em meio ao amplo universo de coisas mais importantes para cada uma. Aquilo sem o qual sabem elas - não é possível nenhuma prescindir, pois que é sagrado para ambas.

Gosto do que nelas é, ao mesmo tempo, visceral, passional, intenso, abissal, espiritual. Soam-me como metáfora das combinações que nos fazem humanos essencialmente plenos, e também precários, provisórios, oscilantes entre desejos e aversões.

Lembram-me também meus alunos de yoga quando começam a se aprofundar na prática. A certa altura, percebendo que yoga não é apenas um exercício físico, mas um trabalho mais profundo que mexe internamente com eles (psíquica, emocional e espiritualmente falando), querem ter explicações sobre o que afinal está acontecendo. Essa é a hora de evocar a boa e velha imagem da cebola para ensinar algo da filosofia que nos orienta:

Pense numa cebola. Imagine que você é essa cebola, um todo feito de cascas e miolo. Para nós do yoga, você, pleno e realizado, é o perfeito entendimento entre você-cascas e você-miolo. Você-miolo é uma espécie de coração da cebola que interioriza suas cascas. Você-cascas é a ponte que exterioriza o seu miolo para fora das suas cascas. De modo que miolo e cascas, integrados, comunicando-se, já não são nem miolo nem cascas, mas cebola. Não há dualidade entre eles, mas unidade.­

Acontece que você, que é cebola (um todo), não se reconhece como cebola, mas como cascas e miolo separados. Você é ignorante de você-inteiro. Você entende suas cascas como escudos protetores de seu miolo e não como pontes para ele, e concebe seu miolo como algo que deve ficar protegido por suas cascas, e não ser ponte para elas. Repare: cascas que defendem miolo das adversidades da vida são as mesmas que também o defendem do que existe além das adversidades, incluindo as bonanças e as boas surpresas. Miolo, que é protegido pelas cascas, não pode influenciá-las nem se manifestar livremente através delas, mantendo-se adormecido e inerte no profundo delas. Em palavras mais diretas, o medo que você tem de confiar, de se entregar, de se revelar, de se expor, de (se) (re) inventar evita sofrer o fracasso e a dor, mas evita também a possibilidade do acerto, do desfrute, do receber, de ser feliz. Há uma separação em si mesmo que o faz desconhecer-se de si mesmo. E, enquanto for assim, você será sempre apartado, parte sem todo, mesmo que você-todo já esteja potencialmente em você.

Como o yoga pode ajudar? O yoga ajuda estimulando a integração (yoga=integração) das cascas com miolo para que a cebola se realize como cebola (você todo). Os lados que compõem alguma pessoa, tal como fazem a mão direita e a mão esquerda na polifonia musical de J.S Bach, devem estar dispostos ao diálogo. O segredo da plenitude do nosso ser é a combinação do complexo de vozes - cascas e miolo - que nos compõem em nome de uma síntese. Como a polifonia das notas ao piano, a síntese, uma vez havendo, transcenderá cascas e miolo e revelará o completo que sempre esteve ali - a própria cebola. Você.

Daí que concluo para o aluno:

O que está acontecendo com você é que, mediante trabalho físico e energético, vagaroso e amoroso, suas defesas, medos, egoísmos e apegos (cascas) estão ficando menos rígidos, começando a servir como pontes e não como obstáculos para passagem da energia abundante (miolo) que já existe em você. Somente com polifonia, será possível corpo ser energia e energia ser corpo, sem dualidades, sem conflitos. Ao longo do tempo - desejamos e acreditamos -, você há de se lembrar que sempre foi integração: Yoga.

OM. Isto é pleno. Aquilo é pleno. Do pleno surge o pleno. Se retirarmos do pleno tudo aquilo que é pleno, mesmo assim, o que permanece é pleno. (Cântico Védico, Purnamadah, In: Isa Upanishad)




      Silêncio

Por Rubem Alves

...conhecimento da fala mas não do silêncio,

conhecimento das palavras e ignorância da

Palavra...”

T.S. Elliot

           

     

Uma palavra sobe das funduras do nosso silêncio;

inesperada,

impensada,

emissária de um mundo esquecido,

perdido:

suspiro,

nosso mistério,

nossa verdade,

oração.

Há palavras que dizemos porque delas nos lembramos.

Possuídas, guardadas, ficam lá, `a espera,

e vêm, obedientes, como animais

domésticos...

Mas há palavras que não dizemos: elas se dizem,

apesar de esquecidas.

Não são nossas:

moram em nós, sem permissão, intrusas

e não atendem a nossa voz.

São como o Vento,

que sopra onde quer.

e não sabemos nem como veio nem para onde vai.

Só ouvimos o sopro.

Nós dizemos: só ouvimos.

Assim as palavras da oração, esquecidas:

elas se dizem.

Fica a surpresa de que um pássaro selvagem como aquele

que mora em nós sem que o soubéssemos.

A palavra que diz a nossa verdade não habita em nosso saber.

Foi expulsa da morada dos pensamentos.

Sua aparência era estranha, dava medo.

Agora habita em porões,

mais no fundo:

longe do que sabemos,

ali, onde não pensamos,

ao abrigo da luz diurna,

no lugar dos sonhos,

suspiros sem palavras.

Elas são tímidas.

Não se misturam.

Falam uma língua estranha.

Babel,

que não entendemos,

e dizem do ar frio das montanhas

e da escuridão dos abismos.

Mas somos moradores das planícies

onde todos falam para não ouvir...

Temos medo das palavras que habitam as bolhas submarinas.

Por isso falamos.

Matracas: ferro na madeira:

clate/clate/clate/clate/clate.

palavras

contra a

Palavra.

Horror ao silêncio: nele moram as palavras de que fugimos:

Sobem do fundo do mar quando se sabem sozinhas...

Ensina-nos a orar porque já não sabemos...

Quando orares

não sejas como os artistas de palco:

falam palavras que não são suas, de outros,

decoradas,

e os seus rostos não são rostos,

máscaras.

Não querem ouvir as próprias palavras

(porque são ocos, não as têm...).

Seus ouvidos só ouvem os aplausos:

moscas, prisioneiros de teias alheias...

Entra no silêncio,

longe dos outros

e ouve as palavras que se dirão

depois de uma longa espera...

Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?

Eles irão rir...

Como, então, poderias orar na sua frente?

Oração, nudez completa,

palavra que sobe do fundo escuro

e revela...

Perante Deus...

somente ele tem olhos mansos o bastante para

contemplar a nossa nudez e continuar a dizer:

É muito bom que você exista...”

Nem mesmo nós...

Entra no silêncio

longe das muitas palavras

e escuta uma única Palavra

que irá subir do fundo do mar.

Uma única Palavra é mais poderosa que muitas:

pureza de coração é desejar uma só coisa...

Uma única Palavra:

aquela que dirias

se fosse a última a ser dita.

Basta ouvir uma vez e, então,

o silêncio...

Como Vênus, brilhante,

na imensidão azul do sol poente...

Antes que tu a tivesses ouvido,

o seu suspiro já reverberava pela eternidade...

Enquanto ela morava no teu esquecimento,

Deus já a ouvia

e tremia...

Faze silêncio..

Ouve...

Alves, R. Pai Nosso: Meditações, Edições Paulinas, São Paulo, 1987, p. 7-10. 40


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