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        FUNDURAS EM MIM - Por profa. Eliane Oliveira - 01/11/2017

      

   (Na foto, meus irmãos Maurício [à esquerda], Rosane, eu e Rinaldo)

Fundo. O outro lado do raso. Olhava para a água de lá. Sete ou oito anos. Pés na beirada da borda. Densidade azul hipnótica. Chamava-me para dentro. Era mais forte que eu. Tinha que pular. Esticava os braços acima da cabeça, unia as mãos em prece e, como uma seta, embicava o corpo para a água. Pulava. De cabeça. Ai, que coisa boa! Piscina do clube. Eu não sabia (oficialmente) nadar. Quer dizer, não aprendi em escola. Aprendi observando meus irmãos mais velhos, sincronizando braçadas alternadas com pernadas frenéticas. Copiava os movimentos deles. Nadava. Havia a piscininha das crianças (bobinha para meus desejos edípicos de piscina) e a piscina dos adultos, semiolímpica, com arraias, fundo com uns dez metros de profundidade (Aí, sim). Queria essa. Na borda lateral do fundo, um trampolim alto. Bem alto. Dez metros, talvez. Não, não pulava do trampolim. Mas pulava dos blocos de concreto sobre a borda da piscina, que elevava, há mais um metro do chão, o salto para o fundo. Deus, cadê os pais dessa criança? Meu pai me monitorava. Da borda da piscina, pertinho de mim, ficava me acompanhando em meu nado. Observava atento. Caso precisasse, saltaria para me acudir. Mas nunca me negou, em meu impulso, de ir lá, do outro lado do raso, pular no fundo. Sozinha. Pelo contrário, no fundo, ele vibrava com minha vontade e meu atrevimento: “Vai lá, minha filha! Vai (pro)fundo!”. Do fundo pro raso. Do raso pro fundo. Dezenas de vezes. Era uma passagem que só eu podia fazer. Sob o encorajamento, cumplicidade e cuidados do meu pai.

Na praia (ó Mar, doce e amado Mar, poderia falar somente de você hoje, já que és, pra mim, um grande mestre), era semelhante. Sem graça tomar banho de baldinho na beirinha, antes do quebra-mar. Eu queria era ultrapassar a linha das ondas espumantes, e alcançar lá onde o mar é caudaloso, grande, escuro, onde não se sente a areia sob os pés, nem se estremece com impacto das ondas. As ondas nervosas quebram lá na frente. Aqui, tudo é calmo. Aqui, o som é silencioso. Aqui, não há perigo. Oito ou nove anos. Minha mãe, ficava lá na beira da praia fazendo com o braço um movimento gigante de “vem pra cá”, “aí já está bom”, “não vão tão longe”. Eu não estava sozinha. Com meu pai e irmãos. “Me leva lá pro fundo?” - pedia. Levavam-me, mas só quando o mar podia me receber, pequenina, sem muitos tropeços e correntezas. O Rinaldo, meu irmão mais velho depois de mim, com aquelas suas famosas brincadeiras em tom meio macabro, ia me carregando pelos braços para o fundo, enquanto dizia: “Você confia em mim? Vou te levar pras profundezaaasss”. Guiavam-me: “Quando vier a onda, você fura”. Ai, que coisa boa! A onda passava levinha sobre mim, suave, sem raiva, e o mar grande me abraçava de novo. Pezinhos batendo sob a água para o corpo flutuar no mar, no fundo. A essa altura, o mar era Oceano. Um lugar muito longe da terra. Um céu do mar. Um lugar fora de qualquer lugar. De pura inutilidade. Sagrado. Segredo que se aprende com quem já experimentou, aprendeu e agora ensina, por nenhuma outra razão, senão a vontade de ver você tão feliz em experimentar essa experiência como ela própria foi feliz, quando a experimentou: “vai por aqui pra ver uma coisa”, “olha só isso”, “sentiu?”, “tenta deste jeito”. Mestres. Mas, como o mar é beira e fundo, o aprendizado apenas se completa quando se retorna para a beira: “Quando vier a onda, vai com ela”. Projetavam-me para eu pegar jacaré sobre a onda, e, então, voltar à praia.

Vinte litros num balde de água. No quintal da casa da Água Santa, um bairro do subúrbio do Rio. Vivi ali por vinte anos. Minha mãe enchia um balde de água, daqueles de vinte litros. O balde era quase do meu tamaninho. Quatro, cinco ou seis anos. Eu, meus irmãos e irmã juntos brincando no quintal, enquanto ela aguava o jardim. O que eu fazia? Metia a cabeça dentro do balde calmamente e ficava com a cabeça afundada, ouvindo o nada, por alguns segundos. Ai, que coisa boa (Já fez essa experiência? Ouve-se realmente o nada. Já ouviu o nada?)! Depois, eu retirava a cabeça, jogando o cabelo tipo “boi lambeu”, embebido de água, para fora do balde, a qual fazia um percurso extenso, molhando tudo a volta (tudo bem, porque tudo estava molhado mesmo!). Liberdade se encontra num balde de vinte litros. Mãe dizia que daria dor no ouvido. Vigiava-me para que as minhas experiências subaquáticas fossem só algumas, mas nunca me impediu que eu me atirasse nelas. Pelo contrário, eu ouvia de seus olhos um entusiasmo e um incentivo: “Vai lá, minha filha, ouve o fundo! Agora, volta. Fique aqui agora, à tona, no colinho da mamãe e me diga o que trouxe para nós lá debaixo d’água, depois do seu mergulho”.

Ou então era na caixa d’água de amianto, que foi comprada para ser caixa d’água, mas não foi usada como caixa d’água. 2.000 litros d’água. Profundidade que me cabia sentada e/ou com as pernas esticadas na horizontal. Virou piscina. Ali, durei mais tempo. Por anos, enchíamos “a caixa” para “tomar banho de caixa”. Eu ia me afundar “na caixa”, nas manhãs, tardes ou noites quentes de verão. Minha mãe era quem vinha verificar, de vez em quando, se eu ainda estava viva, de tão quieta. E depois me deixava. Quieta. Com o corpo todo afundado, só a cabeça pra fora. Como um submarino. A água não se mexia. Ouvindo o som dos pássaros nas árvores do quintal quando era dia; olhando as estrelas do céu, quando era noite. Experiências de meditação. Imersão. Útero. Inconsciente. Calmo. Meia hora, uma hora. Tempo sem tempo. Eternidade. Até emergir, ficar novamente de pé. E, embebida das funduras em mim, agora voltar para funduras fora de mim, no convívio da casa e da família.

A vida imita a vida. Uma vez ido aos fundos, você não poderá nunca mais não ir a eles (ou, pelo menos, ignorá-los). As consequências são irreversíveis. Possivelmente, você se interessará por funduras de todas as dimensões, para vivê-las à tona (Se não for para trazê-las à tona e vivê-las, o fundo será tão raso quanto o raso é para o raso. Fundo e raso são o mesmo todo: um só é um com o outro). Estudo. Pesquisa. As entranhas dos conhecimentos. As essências. As raízes. Poesia. A alma humana. Natureza. Oração. Silêncio. Música, antropologia, yoga. Antigas tradições filosóficas, espiritualistas e religiosas. Meditação. Deus. Entrega. Confiança. No amor, apaixonar-se-á perdidamente, mergulhando de cabeça em histórias profundas e duradouras. Amigos serão como irmãos e irmãos como amigos. Intuições, transmissão de pensamento, sincronicidade, premonição acontecerão frequentemente, pois serão naturais e não sobrenaturais. Sua natureza estará conectada ao Mistério que mora no profundo. O mundo, a sociedade, as culturas e cada pessoa terão a mesma importância pra você que você tem pra você, porque você descobrirá que você e o outro são interdependentes. E que é preciso cuidar (curar) da alma deles como você deve cuidar (curar) da sua. Tudo está enredado.

Você pagará mico. O mico não é muito aceito nas instâncias do raso, mas nos fundos, o mico é uma coisa muito legal. Uma ponte para o Samadhi (iluminação). Eu, por exemplo, sou uma grande pagadora de micos. Especialmente para manifestar amor, de qualquer tipo (fraternal, filial ou “namoral” - não encontrei outro adjetivo). Não fique com vergonha alheia de mim nem tenha medo de mim achando que eu sou maluca, por exemplo, eu manifestar meus sentimentos, ideias, pensamentos a você, às vezes sobre você, de um jeito tão claro, entusiasmado e direto, que você, enrubescendo-se, vai querer que o chão se abra para enfiar a cabeça, ou atravessar a rua, fingindo que não me conhece. Será tão visceral e impulsivo que, às vezes, você não saberá o que fazer objetivamente com a emoção que lhe causou. Nessa hora, não faça nada objetivamente. Respire. Receba e aceite. Se for possível, retribua. Se não for possível, disfarce e vá ali tomar uma água.

Você também poderá deixar as pessoas preocupadas com você, por causa da sua intensidade. Comigo, já houve quem ficasse em aflição, quando me viu chorando aos soluços após ouvir Vandeli, assistir Amelie Poulain ou ler Rubem Alves. A pessoa ficou tão nervosa em me ver “entrar pra dentro” que precisei tranquilizá-la: “Eu só estou chorando. Deixa eu chorar. Calma!”. Em outras palavras: “Não pense que me afogarei no caminho até o fundo. Dá-me espaço para me jogar nesse Oceano. Permita-me entrar para ver Deus. Vou ali e volto. E, quando voltar, estarei um pouco mais aqui e agora, com você e com o mundo. Quando, então, poderei ver Deus também na superfície”.


Comentários a esse texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com



       POEMA A UM AMOR NÃO REALIZADO (Por Eliane Oliveira)


Ontem, no dia do poeta, escrevi um poema de amor para um amor não realizado. Poetas escrevem sobre o amor e professoras de yoga também amam. Gosto de me expor no humano que sou para desfazer no outro e em mim mesma qualquer projeção ou ideia mítica de que "professoras de yoga, a um passo da iluminação ou já iluminadas, tem respostas para tudo, não vivem medos, dúvidas, desafios e contradições, não fazem xixi, não beijam na boca, não sentem dor, nem ficam doentes", entre outras coisas. Se você pensava assim de mim, vai se decepcionar (e, nesse sentido, é bom) quando ler os meus poemas de amor. No amor e nos poemas (e também no yoga), tudo se aprende através do humano. O humano é ponte para iluminação. Somente se a alma se desnuda pode encontrar a Deus. Sigamos os passos dos que se tornaram ensinadores somente porque foram humanos, demasiadamente humanos. Om Sri Gurubyo Namah! Salve todos os mestres! Eliane Oliveira

POEMA A UM AMOR NÃO REALIZADO
por profa. Eliane Oliveira
(21/10/2017)

Falo do amor que escorreu pelas mãos feito água.
Foi morar na Terra dos amores não realizados.
Vive lá agora,
e, sendo amor mas de outro jeito,
ali pulsará no tempo onde não há tempo.
Porque amor não é coisa que se possa morrer.
Amor fica, mesmo que vá.
Não volta, mas está guardado.
Na Terra dos amores não realizados, não se deixa de amar alguém por esse não ter sido seu par.
Não ter sido par não é mais valioso do que ter sido amor.
O que não deu certo foi a realização do amor em par, mas não do amor em si.
Um baú submerso no oceano da Terra dos amores não realizados protege o ouro puro:
a única noite num bar do subúrbio em que estiveram realmente juntos,
os beijos que arrepiaram sua pele,
as linhas da palma da mão que revelavam seus segredos,
os pés que perdiam o chão e o coração que saltava quando seus olhares se cruzavam pela rua,
o vinho prometido que renderia definitivamente quem já tem fraqueza para bebida,
a esperança por descobrirem juntos em que pontos o prazer chegaria rápido aos seus corpos,
a carta de amor explícito, escrita no impulso de quem ainda não percebia que se apaixonara,
as músicas tocadas ao piano, gravadas e presenteadas para seduzir os seus ouvidos,
o filme francês bonito, divertido e sensível enviado como um último pedido para um reencontro.
Na Terra dos amores não realizados, tudo, até o que foi desencontrado, não comunicado, mal entendido, confundido, delirado, ambíguo, oscilante, desconfiado, temido, chorado, entristecido, embravecido, insistido, desistido e despedido é percebido e aceito como tendo sido exatamente do jeito que era pra ser.
Porque lá se sabe: amor é regido pelo Mistério,
que escrevendo certo por linhas tortas, une no tanto e na forma que deve ser,
que sopra onde quer e junta as partes até onde for pra juntar,
que tece dois em zigue-zague, sem dar pistas sobre para onde a história irá.
Pisa-se no invisível quando se ama.
Tateia-se como cego quando se ama.
Cambaleia-se como bêbado quando se ama.
Amor não se vive em linha reta nem é feito só de peças angulares em quebra-cabeças que já conhecemos.
Falo do amor que escorreu pelas mãos feito água.
Vive agora na Terra dos amores não realizados.
Hoje, encontrei-me com ele no pensamento.
Segurei as suas mãos e olhando em seus olhos, disse-lhe:
"N, sim, seja feliz, muito muito feliz."



O DIA DO FINAL DO MUNDO (23/09/17) - por profa. Eliane Oliveira

    

Disseram que seria hoje. Que o mundo acabaria. Não acabou. Pelo menos até agora, 16h45, quando começo a escrever esse texto. Pode ser que ainda aconteça mais tarde. Se bem que, se fosse hoje, os ventos estariam mais fortes. Amanheceu meio esquisito, nublado, cinzento. Mas, depois o sol abriu. Não deve ser hoje. Os astrólogos anunciaram o alinhamento entre três planetas e nove estrelas. Fenômeno raro no céu que pode ser um sinal do advento de algo raro. A volta de Cristo, o Apocalipse, o tempo da eleição dos justos, ou, para os mais reservados, a abertura de algum portal espiritual que nos dará acesso a um novo tempo: o tempo da luz e o fim da escuridão. Opa, é bom falar em luz! Estamos precisando. Ativa a esperança. Dá vontade de insistir na vida, apesar dos pesares.

Por via das dúvidas, aproveitando que deu tempo de acordar de manhã cedo antes de acabar o mundo, sentei pra meditar, como faço todos os dias. O assunto me trouxe a vontade de rever a vida mais radicalmente do que já faço sempre. Na hipótese do final de tudo hoje, como está minha vida? Como estão meus apegos? Porque nada que tenho materialmente (afetos, amigos, família, casa, trabalho, corpo, dinheiro) importa tanto assim se tudo acaba. Qual osso eu ainda não largo? Gostei da ideia do portal que se abre para um novo tempo. É pedagógico imaginar uma passagem de hoje para um outro dia que será todo outro, mundo de luz em que finalmente estarei liberta da cegueira da ignorância, que me traz medo, culpa, intolerância, egoísmo, impaciência, fantasia, apego. Pois bem. "Chegou esse dia", eu mesma me disse a mim com olhos fechados em meditação. Chegou o dia do "Chega!". Do "Basta". Do limite. Como um ponto final saturnino. Dia em que eu atravesso o portal da fantasia para o da realidade e aceito a vida como ela é, pois o que é, é o que deve ser. Se não fosse, não seria. Eu goste ou não goste. Sem espernear. Sem fazer malcriação. Calma-mente. Recebo o "irmão limite", como diria São Francisco de Assis, limite que diz "adeus, até nunca mais", considerando, obviamente, que "nunca mais" não existe, pois o que vai, sempre fica, porque a vida é uma mistura de experiências, memórias, histórias, vivências absorvidas numa síntese. Eu não sou a mesma após me encontrar com você. Nem você é o mesmo após se encontrar comigo. Somos “euvocê”, “vocêeu”. Ficamos juntos quando vamos, não nos separamos. Entretanto, vamos, porque a vida é uma partida desde que começa. Ela vai. Ela segue. É um ir permanente, cheio de impermanências. Podemos até querer controlar esse curso, mas não conseguiremos. É natureza. A ordem que nos rege.

O caminho é pleno de pequenas mortes, pequenos finais, pequenos apocalipses. O caminho é pleno de nascimentos, portais para outras e novas vidas na nossa vida.

Sei que não fiquei nervosa com a possibilidade de tudo acabar. Moro perto do Aterro do Flamengo. Pensei: se houver um tsunami, nem vai dar tempo de ver a onda. Quando vir, já fui. Quer dizer, " flui ".

"Há um dito tibetano que diz que a pessoa que não se lembra da impermanência ou da inevitabilidade de sua morte é como uma rainha. Nos tempos antigos, no interior das cortes reais, a rainha tinha de manter uma imagem de importância e de autoconfiança, e cumpria-lhe estar sempre muito preocupada com a defesa da própria reputação e autoimagem. Mas no seu coração ela trazia todos os tipos de desejos e medos - do prazer ou do desprazer do rei, do poder e da perda da sua posição -, de modo que sua atitude era essencialmente de simulação, com a finalidade de proteger-se. Da mesma forma, podemos dedicar nossas vidas a um caminho espiritual num sentido extremo, embora possamos ter ainda, ocultos, inúmeros desejos - de poder, de posição, de louvor. Não nos lembramos da impermanência nem da certeza da morte e, assim, não podemos nos proteger contra os nossos desejos. Mas quando compreendemos a impermanência de nossas vidas, podemos nos adaptar mais prontamente a todas a situações e não nos tornamos agarrados a elas, nem somos arrastados por elas". (Tarthang Tulku, In; Gestos de equilíbrio, Pensamento: São Paulo, 1977)

Sobre a complementariedade dos opostos (vida e morte, partida e chegada, fim e começo), ouça a música (voz profa. Eliane Oliveira): https://www.youtube.com/user/Eliane1057

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SOBRE AS IMPERMANÊNCIAS - Por Profa. Eliane Oliveira



Impermanências são o que há de permanente na vida. É o que nos ensinam os mestres de muitas tradições: cristãs, budistas, taoístas, hinduístas, indígenas, judaicas, etc. Umas impermanências, mais notáveis, servem para nos sacudir das ilusões que criamos. Surpreendem-nos, de vez em quando. Outras, já estão naturalizadas, como o dia e a noite, a inspiração e a expiração... Eu tenho meditado nelas. Elas marcam minha vida fortemente, e, hoje as identifico, as acolho e me exercito para aceitá-las com serenidade e respeito, reconstruindo-me a cada desconstrução. É um trabalho. Para nós, que somos apegados, não é muito confortável viver isso nem falar disso nem ouvir sobre. Sei. Mas, apesar disso, é importante falar disso e ouvir sobre, porque viver, viveremos mesmo.

Impermanência passeia nos meus últimos textos e poemas. Estão nas minhas conversas com alunos, amigos e parentes. Estão nos eventos da vida, que me levam e que me trazem, partindo e chegando, abrindo e fechando, indo e vindo.

Insistindo nessas reflexões, quero compartilhar com vocês uma música que gravei em 2008 com o músico e pianista Alan Warszwaski. A música foi composta pelo Alan inspirado na filosofia taoísta e em passagens do seu oráculo I Ching. Elas refletem o caminho da interdependência entre os opostos, que, se se integram, já não são tão opostos assim, embora, ao mesmo tempo, permaneçam opostos. A letra se chama Baião dos Opostos. Baião é uma dança que se dança bem juntinho de um outro. Duas pessoas que, quando juntas, são um. Baião dos Opostos, então, sugere a conexão e a sintonia entre dois, que sendo diferentes, também são um. Alan faleceu em 2010, aos 35 anos. Passou cedo, mas ficou eterno. Como todos. Somos passantes e eternos. (In memoriam +1975-2010)

Música gravada em Santa Teresa (RJ), em microfone caseiro. Sem edições, desde a fala de "então vai", no começo da música rs. Considerem as idas e vindas, os altos e baixos, como o yin e o yang. Para ouvir, clique em cima da imagem, ou acesse o link: 

https://www.youtube.com/user/Eliane1057


BAIÃO DOS OPOSTOS (Alan Warszwaski e Eliane Oliveira - 2008)

É popular ou erudito, diz então;
É pra cravar o pé na terra ou em outra grande bela dimensão
A vida faz opostos se enroscar
É para o tédio não disseminar
No tempo não existe corrimão
O equilíbrio do mistério fere a desilusão.

Um, traz o frio
O outro, traz calor
Um, traz serenidade numa pétala de flor
Um, traz a "inha"
O outro, traz o "ão"
Toda perversidade não vem só da razão
Senti a dor que vinha dentro de algum lugar
Joguei I Ching e Iluminou o que me fez pensar
Que cada lado é um talho do clarão do mesmo incitar que gera um coração

É de repente ou de mansinho, diz então,
A retirada voluntária no inverno é uma boa decisão
A vida faz opostos se cruzar
É um remédio pra movimentar
O pêndulo faz cócegas na mão
De quem procura todo dia andar na outra direção

Um, traz o frio
O outro, traz calor
Um, traz serenidade numa pétala de flor
Um, traz a "inha"
O outro, traz o "ão"
Toda perversidade não vem só da razão
Senti a dor que vinha dentro de algum lugar
Joguei I Ching e Iluminou o que me fez pensar
Que cada lado é um talho do clarão do mesmo incitar que gera um coração.

https://www.youtube.com/user/Eliane1057

Comentários a esse texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com


       POR QUE PRATICO YOGA

         (Texto da profa. Rosane Oliveira)


Quando fazemos yoga conhecemos os limites e potencialidades do nosso corpo físico. Aprendemos a nos respeitar e movimentar melhor. Podemos corrigir vícios posturais, e até conquistar mais alongamento e flexibilidade. Reaprendemos a respirar, a aumentar nossa capacidade respiratória, a fechar os olhos, fazer silêncio. Meditar.

É preciso de dedicação para ser um bom praticante de yoga. Precisamos exercitar a disciplina também. Ser disciplinado com nossa prática pessoal, com a boa execução de nossa série de exercícios, respirações e posturas, com o horário e duração da aula. Tudo isso é importante.

Mas a prática de Yoga propõe mais.

Um dos significados da palavra Yoga, em sânscrito, é unidade, integração. Yoga é um caminho para dentro de si mesmo, que, ao mesmo tempo, nos leva para o outro, o que conhecemos e o que não conhecemos. Através do Yoga, podemos vivenciar uma integração conosco, com tudo e todos a nossa volta. Podemos perceber que somos vida.

Fazer yoga só faz sentido se tentamos vivenciar e aplicar em nosso cotidiano tudo o que experimentamos na aula. Mais do que fazer yoga é preciso praticar yoga.

Praticar Yoga é conquistar flexibilidade, maleabilidade não apenas no corpo físico, mas, principalmente, em nossas ações e pensamentos, quando a atitude de ser flexível for necessária conosco e com o outro, para que não endureçamos. É buscar ter calma e serenidade diante dos diversos desafios que surgem ao longo do dia (e surgem, vão continuar surgindo), através da respiração suave, profunda e consciente, através da observação do silêncio interior. É ter equilíbrio, paciência e força interior para superar as dificuldades e desânimos que, vez por outra, nos alcançam - qualidades que podem vir da dedicação, persistência e disciplina mental. É poder viver com leveza, apesar dos pesares.

Yoga não termina quando saímos da sala de prática. Pelo contrário. O Yoga deve continuar em nossas vidas, nos nossos cotidianos, nas nossas relações, nos lugares que frequentamos.

Para mim, Yoga é uma escolha, um estilo de vida. A sala da prática é o lugar onde me alimento e me fortaleço. Um dos lugares onde posso me nutrir. É onde posso encontrar pares, companheiras e companheiros de caminhada, e compartilhar meus aprendizados e transformações internas (nem sempre fáceis de aceitar), mesmo que no silêncio da aula. Partilhas também se fazem com olhares, presença solidária, um dando força pro outro, um apoiando o outro, sem que palavras precisem ser ditas.

Yoga é unidade com a vida, comigo, com o outro. Com você. Yoga não termina, mas continua pela vida inteira.


       COM-TATO (texto da profa. Eliane Oliveira) - 14/05/17


Escreva-me uma carta.
Gosto de textos feitos com palavra.
Pode ser longo.
Pode ser curto.
Mas escreva-me palavras.
Comece com data no cabeçalho e depois com o meu nome na saudação.
Algo do tipo: Rio, 14/05/17, Oi Eliane.
Escreva-me um bilhete.
Prefira papel e caneta.
Email serve mais ou menos. Não haverá nada mais visceral que uma folha escrita com suas letras. Suas.
Papel seu que tocarei e terei meu depois de ter sido tocado por você que escreveu.
Papel que carrega o suor das suas mãos, a tinta da sua caneta, a força da sua intenção, o tempo escolhido do seu dia.
Se o assunto for funcional, tudo bem o virtual.
É mais prático. Pá-pum.
Se o assunto for amizade ou amor, deve ser recebido, aberto, lido, comido, deglutido, ruminado, silenciado, guardado, sentido.
Quanto mais viscoso, quanto mais textura mais presente será sua presença.
É preciso que haja face (rosto, pele, olhos, cheiro) e não feice (de facebook).
Coloque na caixa do meu correio, use o serviço postal ou deixe debaixo da minha porta.
Descobrirei o desenho da sua letra e já conhecerei você ao conhecê-la.
Pode também me telefonar.
Gosto de ouvir a voz de quem fala.
Na hora, os dois na linha, um aqui, outro lá.
Gravações da fala parecem telefonemas, só que não são.
Gravações podem ser cortadas, desfeitas, editadas.
Em telefonemas, presenciarei sua reação direta, espontânea, reticente, sem tantos filtros.
Se preferir, estou em casa. Toque a campainha.
Quando você chegar, poderei tê-lo de perto, corporal.
Conversaremos à mesa do café com bolo ou na sala quase sempre meio bagunçada do dia-a-dia.
Se me vir na rua, no corredor, na portaria, na praça, no supermercado, se quiser falar comigo sobre nós, deve falar a mim diretamente, reservadamente, e não na presença de outros, senão eu e você.
Que ninguém mais, a não ser nós dois, esteja entre nós para amenizar a tensão, o frio na barriga, a insegurança, a alegria, a humanidade desse
com-tato.
Assim, sim: a vida ser
á real.
E quando finalmente nos tatearmos um ao outro, poderemos rir juntos.

Comentários a esse texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com



       MANIFESTE SEU AMOR
- Por profa. Eliane Oliveira

               

Manifeste seu amor. Diretamente. Fale. Sem medo. Se tiver medo, fale assim mesmo. Olhe nos olhos. Deixe o whatsapp para assuntos funcionais. Para assuntos do coração e da alma, é necessário o toque, o som da voz, a respiração do outro, o coração acelerado, gaguejar na palavra. Chame o outro num canto pra conversar. Esteja com ele face-a-face. Sem platéias. Sem máscaras. Sem disfarces. Sem a mediação de um grupo. Só você e ele. Permita-se ser visto naquilo que você é. Permita-se receber o outro naquilo que ele é. Permita que ele o escute, que ele o perceba. Abra-se para escutá-lo e percebê-lo. No seu íntimo. Para que ambos se vejam reciprocamente em sombras e luzes. Vale a pena! Isso sim é real. Isso é humano. Amor gera e multiplica amor. Não tem contraindicação nem limitação. Comunique seu amor sem querer controlar as consequencias que isso terá. Contraditoridamente, porque você resolveu ser mais autêntico com você mesmo, alguns poderão achar que você está ficando maluco. Você começou a expressar seu amor, gratidão, perdão, amizade, alegria, desejo de viver, e alguns acharão isso muito estranho. Esses provavelmente irão se afastar de você. Mas, outros vão entender e se conectar. Acredite: o Ser em nós é abundância. Nosso exercício deverá ser descobrir a abundância em nós e estar permanentemente atualizando essa consciência. E, então, haverá um tempo em que todos estranharemos quando passarmos um dia sem manifestarmos nosso amor, nosso perdão, nossa gratidão, nossa alegria, nossa amizade.

Com amor, Eliane Oliveira (profa. do Espaço Uddiyana)

Comentários a esse texto:

eliane.martins.oliveira@gmail.com

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4 PODEROSAS FRASES DE AMOR DE UM MESTRE ZEN PARA RELACIONAMENTOS.

               

Thich Nhat Hanh é um mestre zen, líder espiritual, professor, poeta, autor e por ai va Em suas lições, ensina sobre o amor, paz e meditação.

Com sua fala extremamente simples e poderosa, Hanh é entrevistado pela apresentadora Oprah Winfrey, em seu programa sobre amor.

Hanh nos traz luz a 4 frases poderosas, mantras, sobre o amor e a forma de expressá-lo. Inicialmente, podemos pensar como um monge celibatário pode nos dar uma dica de como melhorar o nosso relacionamento amoroso, mas logo percebemos, com espanto, um conhecimento sutil e profundo revelado em sua fala.

4 Mantras de amor por Thich Nhat Hanh:

1 - Eu estou aqui por você.

Esse mantra afirma e oferece a nossa presença para a pessoa que amamos. Pense: qual a melhor forma de demonstrar amor do que estar disponível ali, naquele momento, para uma pessoa? São tantas preocupações e distrações que, muitas vezes, não estamos 100% com o outro. Contas a pagar, trabalhos para fazer, planos para depois, lugares para ir, notificações no celular para olhar, e-mails chegando, pensamentos e pensamentos que nos tiram a presença total no momento. Reconhecer isso e oferecer a sua presença é dizer ao outro que ele é importante, e esse é o segundo mantra.

2 - Eu te enxergo, eu sei que você está aí.

Esse mantra está relacionado profundamente ao outro. Não basta só olhá-lo; antes de mais nada, é preciso enxergá-lo em essência. Reconhecer o grande Ser Humano e Ser de amor que o outro é. É conhecer a sua existência. Hanh ainda complementa o mantra com: e estou muito feliz, demonstrando ao outro o quão boa é a sua presença.

3 - Eu sei que você está sofrendo. É por isso que eu estou aqui para você.

Esse mantra pode ser usado quando vemos que o outro está em um momento de dor. Neste caso, é você novamente que reconhece o outro, a situação por que ele está passando e oferece a sua presença antes de qualquer ato de ajuda. Trata-se de utilizar o seu poder de compaixão.

4 - Eu sofro. Eu estou tentando o meu melhor; por favor, ajude-me.

Esse mantra é usado numa situação em que você sente dor por algo que a pessoa que ama fez. Hanh diz que, ao invés de nos recolhermos e entrarmos na nossa caverna, que nós reconheçamos esse nosso momento e nos expressemos ao outro, ao mesmo tempo em que o convidamos a ajudar. Devemos deixar claro essa nossa dor, confessar que queremos sempre fazer o melhor, embora muitas vezes não consigamos, e, por último, oferecer ao outro um espaço para que o melhor sempre aconteça. Esse é o espaço do aprendizado, do amor e da compaixão. Esse mantra tem o poder de reduzir a sua dor.

Esses mantras devem ser usados sempre com amor, pois são fórmulas para trazê-lo ao momento presente e melhorar a nossa relação com as pessoas que amamos. Essas frases poderosas podem ser usadas pessoalmente, olhando nos olhos do outro, e, quando não for possível, por telefone, whatsapp, e-mail, Messenger.

Mantras originais:

Querida, você sabe? Eu estou aqui por você.
Querida, eu sei que você está aí e estou muito feliz.
Querida, eu sei que você está sofrendo. É por isso que eu estou aqui para você.
Querida, eu sofro. Eu estou tentando o meu melhor para praticar; por favor, ajude-me
.

O vídeo da entrevista pode ser visto no Youtube. Clique na figura abaixo ou no link https://www.youtube.com/watch?v=UEUxFNkISnU. Para legendas em português, clique no ícone [CC] e depois em configurações, selecionando auto-translate e portuguese..

        

http://www.contioutra.com/4-poderosas-frases-de-amor-de-um-mestre-zen-para-relacionamentos/


DE CABEÇA PARA BAIXO - Por profa. Rosane Oliveira

          

Sempre pensei em como são parecidas a postura do Yoga chamada Sirsasana (invertida sobre a cabeça) e a carta do Tarot de Marselha chamada “O Pendurado".

Sirsasana, a posição invertida sobre a cabeça, é seguramente um dos asanas mais desafiantes na prática yóguica. Salvo as sempre possíveis exceções, acredito que, não só eu, mas a grande maioria dos praticantes iniciados sente dificuldade em executar o Sirsasana, uma vez que o nosso corpo não está inteiramente programado para essa posição e que aprendemos desde cedo, pela cultura racionalista em que estamos inseridos, que é preciso botar a cabeça no lugar e não perder a cabeça, “deixar os pés no chão”, significando manter a mente racional no controle da vida. 

Meu interesse pelo tema se deveu, principalmente, à dificuldade pessoal de ficar com o corpo invertido. Lembro-me que, quando criança, dava cambalhotas, mas não me lembro de plantar bananeiras ou dar estrelas”. Pelo contrário, nessa parte da brincadeira, eu ficava apenas observando, tentava, mas o pulo saía pela metade, sem ficar totalmente de cabeça para baixo e, desistindo, passava logo para um outro entretenimento. Curiosamente, só resgatei essa lembrança quando comecei a prática de Yoga, pois nunca, em meu cotidiano de adulta, fui solicitada objetivamente para que meu corpo invertesse, literalmente falando. 

Ao me deparar com o Sirsasana no Yoga e ao saber que esta era uma postura presente no yoga que eu teria que praticar, fiquei angustiada. Voltou-me um medo esquecido, que estava inconsciente por muito tempo. Mas, junto com esse processo, também percebi a possibilidade de elaborar aquelas sensações e, a partir da consciência delas, a oportunidade de buscar um entendimento pessoal sobre o que está por detrás do ato de inverter, organicamente, simbolicamente, psiquicamente. 

Sirsasana é uma postura complexa, que envolve o equilíbrio e a força muscular - sobretudo dos ombros, braços e costas, e músculos abdominais, que desempenham um papel central na sua execução. Porém, como qualquer outra postura de Yoga, abrange uma ativação da consciência de dimensões mais internas, psíquicas e energéticas. A posição vertical, pés plantados no chão, comumente, nos passa uma ideia de ação, atividade, controle, segurança, estabilidade. De normalidade. Podemos ir a qualquer lugar com nossos próprios pés. Enquanto isso, a posição invertida nos dá a sensação de vulnerabilidade, de instabilidade, inatividade, desarrumação. De anormalidade.  

Visualmente, Sirsasana é o mesmo homem pendurado da carta 12 do tarô, e, acredito que, simbolicamente, também é possível pensar algumas relações. 

A carta 12 do Tarot de Marselha apresenta um moço que está dependurado de cabeça para baixo, amarrado por um pé a uma forca, cujos postes são árvores truncadas, cada uma das quais com seis cotos que sangram onde os galhos foram podados. O homem suspenso observa o mundo de cabeça para baixo. As mãos estão atrás do corpo, e não sabemos se estão presas ou não, mas sugere uma postura em que o rapaz não possui poder para moldar sua vida nem controlar seu destino. O rapaz não possui poder pessoal, está submetido a uma força superior a ele. 

Segundo a estudiosa do Tarot, Sallie Nichols, à primeira vista, a figura do Pendurado pode parecer indefesa, mas, após uma observação mais cuidadosa, pode-se perceber que sua expressão não manifesta sofrimento, poderíamos até sugerir que ele parece estar meditando. Pode querer dizer, também, um novo olhar sobre uma determinada situação, uma alteração de comportamento, o abandono de hábitos; uma atitude de recuar para poder avançar; abandonar a tirania do controle mental sobre as situações. 

Porém, quando o Yoga começou a se integrar em minha vida, e com ele, as posturas invertidas, minhas impressões e sensações com a carta do Pendurado, e, com as posturas invertidas, também foram se modificando. 

Ficar de cabeça pra baixo, surpreendentemente, surgiu como uma experiência que podia ser agradável pra mim. Obviamente, não aconteceu de uma hora para outra. 

Comecei, então, a vivenciar um conjunto de experiências com essa postura. No início, o mais claro era o medo. Ficar pouco tempo na postura; perceber a mente trabalhar incessantemente, numa ansiedade de pensamentos e fantasias psíquicas como despencar da corda, cair no chão, quebrar o pescoço, como se quebra um galhinho de árvore fazendo um trec”, “perder a cabeça”. Foram esses os primeiros pensamentos. Mas em seguida, essa postura também me trouxe uma outra surpresa: a de que sentia meu corpo mais forte, firme, ativo e não passivo como aparecia nas fantasias. Compreendi que também não era o caso de deixá-lo duro, rígido, porque assim, também não conseguia equilíbrio. 

Após fazer essa familiarização corporal, começaram outros tipos de sensações e interesses na postura. Instigou-me uma curiosidade de olhar tudo de cabeça pra baixo. E era apenas nisso que fixava minha atenção. Mas assim, também perdia o equilíbrio. 

Essa sensação passou a ser mais íntima, isto é, passou a ser um sentir”, sem precisar olhar para as coisas, como antes. Da mesma maneira que o Pendurado, que vê as coisas de cabeça pra baixo, eu aprendi a ver o mundo a minha volta com outros olhos, sob ângulos diferentes. Pois, enquanto nós não experimentamos ver tudo invertido, tendemos que achar que há apenas uma única maneira de ver o mundo ao nosso redor. E, por esse ponto de vista, ver a vida "de cabeça para baixo" é uma experiência transformadora.


       Referência Bibliográfica: 

Nichols, Sallie. Jung e o tarô - uma jornada arquetípica. SP: Editora Cultrix, 1980.


Perdão - Texto da profa. Eliane Oliveira - 13/02/2017


 
      

Eu erro.

Devo ter errado com você.

Suponho que o tenha magoado com minha arrogância, teimosia e orgulho.
Suponho que não o tenha ouvido, projetando minha impaciência e indiferença.
Suponho que não o tenha sentido, desatenta às suas expressões.
Suponho que eu tenha sido incoerente nos próprios princípios que anuncio.
Sou capaz de me autoavaliar, mas não consigo saber ao certo, por isso peço: fale pra mim!
Preciso que me fale.
Só entendo se você desenhar. Não sou boa de ler pensamentos. Minha intuição anda nebulosa.
Whatsapp e papos virtuais não adiantam.
Se eu lhe causei algum sofrimento, fale-me?
Olhe-me nos olhos e me fale.
Chama-me num canto e me fale.
Fale-me para que eu possa repensar nas coisas que fiz ou deixei de fazer.
Fale-me para que eu possa pedir o seu perdão se o ofendi.
Fale-me para que eu possa me perdoar se não consegui ser a melhor pessoa que esperava ser.
Fale-me para eu possa perdoar você, que também erra. Somos provisórios. Somos humanos.
Fale-me para que eu possa lhe falar que sinto amor por você, mesmo sendo incompleta.
Fale-me para que a magia do entendimento e do diálogo aconteça.
Quem sabe assim eu não aprendo com você sobre uma parte de mim que ainda não enxergo?
Estou em fase de crescimento.
E isso ainda vai durar pelo menos a vida toda.
Não sei as respostas.
Sou só imperfeita.
Tenho mais dúvidas.
No meu coração, de carne e espírito, moram feridas que estão em processo de cura.
Na alma, há memórias que endurecem meus olhos.
Não é assim também com você?
Reconhece-se em mim?
Um pouco ao menos?
Perdoa-me se todos erramos.?

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        PEDRA DURA EM ÁGUA MOLE TANTO BATE ATÉ QUE FLUI -

      por Profa. Eliane Oliveira - 23/01/2017

             

(Profa. Eliane Oliveira - Maromba, Visconde de Mauá, RJ- Janeiro/17)


Se quiser chegar ali, você tem que seguir uma trilha já meio perdida no mato fechando. É bom ir pisando forte para afastar as serpentes que passeiam fagueiras no caminho. Vou seguindo às 9 da manhã, com o sol no céu e frio na sombra. Serra. Cheiro bom. Nenhum movimento humano. Eu sozinha, além, obviamente, do curupira, dos sacis e das fadas. E do rio. Com reverência, peço licença aos mestres da floresta pra entrar em sua casa.

(Pocinho é o nome “oculto” da cachoeira. “Oculto” porque se você pergunta para alguém da cidade onde ela fica ninguém conhece. Não vão lhe dizer. Existe para uns. Pocinho faz referência à outra batizada no aumentativo - Poção -, a que os turistas chegam facilmente porque são conduzidos por placas indicando a entrada: “Aqui, Poção”. Os moradores da Vila de São Miguel da Maromba, em Visconde de Mauá, sob a luz do arcanjo, conduzem a atenção dos forasteiros para algumas cachoeiras, deixando secretos os portais para os recantos mais virgens. Guardam sagrado).

Sento-me naquela pedra em que sempre me sento quando venho. Todo o ano venho. Pelo menos uma vez. Fico quieta. Faço nada. Observo o rio. As águas passam. Abraçam as pedras sem senti-las como obstáculos. Deslizam sobre e entre elas. Simplesmente. Se não encontram espaço, pulam em cascata ou infiltram-se na terra. Humildes. Lá vem uma folha escorregando pela queda da cachoeira. Entregue. Confiante. Um galho. Uma flor. Tudo corre fácil. Não há esforço. Só corre. Reparo no fluxo. Fluxo é quando flui. Penso na vida. Penso se eu fluo como o rio. Não, não fluo sempre. Mais vezes, quero controlar o movimento natural das coisas. Oponho-me à correnteza, insisto no que não corre. “Faço esforço” para que a coisa aconteça. Tento “forçar a barra” da realidade para caber nela o que eu quero ou que penso que seja melhor pra mim. Frequentemente, insisto no que desejo que a vida seja e não no que ela já está sendo. Brigo com ela. Faço malcriação. Não aceito. Não me conformo. Por que comigo? Por que assim? Entristeço-me. Embraveço-me. Faço bico. Cruzo os braços. Viro pedra. Daí, obstinada, teimo ainda mais no que já teimava. Ao contrário do rio, que reage às pedras em seu caminho com malemolência, flexibilidade, aceitação e leveza, eu reajo com mais dureza. “Dou murro em ponta de faca”. Imagine a cena assombrosa (ou pule essa parte) realizando a expressão citada: sangue escorrendo da mão perfurada pela ponta da faca, que você continua esmurrando, mesmo causando você mesmo um sofrimento pra você. Controlar, forçar, esforçar, torcer, esmurrar. A linguagem não esconde o tanto de medo que sentimos ao percebermos nossas impotências diante do curso misterioso da vida, que nem sempre obedece aos nossos quereres e saberes. Defensivos, fechamos os poros. Represamos. Mas, o rio continua a correr livre por entre nossas pedras, apesar da nossa birra. Como poetou Manoel de Barros, “Liberdade caça jeito”.

Noutro dia, minha aluna Lia, com seus 85 anos, me ensinava algo assim, em tom shakespeareano: “Ô Eliane, há mais mistério nesta vida do que alcança nosso entendimento raso. Tudo é mistério. A gente não sabe porque nasce, a gente não sabe porque morre, a gente não sabe por que as coisas acontecem. Elas só acontecem. Nem tudo podemos entender. Nem tudo podemos evitar. Nem tudo que queremos, teremos. Somos muito pequenos diante disso. O melhor a fazer é nos entregar, confiar, soltar”. Ela, uma yoguini que ama Jesus e frequenta a igreja católica, arrematou: “Faça sempre a Vontade de Deus, Eliane, que tudo dará certo”. Vontade de Deus é outra forma de dizer “segue o fluxo, minha filha”.

Não, não fluo sempre. Mas tenho treinado bastante com a ajuda de algumas tradições. Além do yoga, a arte é minha mestra nas malemolências. Na escrita, se insisto numa ideia para escrever um texto, se insisto numa frase, se insisto numa palavra, o texto estanca. Aprendi: já não mais insisto. Abandono. Desisto. Jogo fora. Deixo que ele se manifeste como quiser, usando-me como seu lápis. Só fazendo assim, ele me vem claro, forte, sincero. No piano, há músicas que não querem ser tocadas naquele determinado dia. Respeito. Passo para outras. Essas estão soltas. O som fica bonito. Um vizinho meu, idade avançada, cabelos brancos e ouvinte atento do meu piano, outro dia me disse carinhosamente que gosta quando as notas dão “aquela corridinha”. Ele deve estar se referindo ao dedilhado de alguma escala que lhe soa fluente e, por isso, o comove. Agora, na dança (eis uma revelação): entrei para a dança de salão. Já dancei outros tipos de dança (jongo, maracatu, afro, jazz, samba), mas essa é diferente: tem par. E, para se dançar com um par, é necessário entrega. Deixar-se ir. Você sente o fluxo da dança no corpo do outro junto ao seu. Quando a conexão com o outro se estabelece parece que ambos levitam. Bem, um dos meus pares de forró, que dança a mais tempo que eu, já me disse que estou craque. Fiquei envaidecida. Sinto que estou dando passos no aprendizado da fluidez. "Pedra dura em água mole tanto bate até que flui".

Corra, rio meu! Seja livre! Seja leve! Seja solto! Seja sábio! Seja água! Seja rio!


“O mestre faz seu trabalho
e depois pára.
Ele entende que o Universo
é eternamente incontrolável
e que tentar dominar os eventos
vai contra a correnteza do Tao. (Tao Te Ching, cap 30)

 

Por isso, o sábio age sem nada fazer
e ensina sem nada dizer.
As coisas surgem e Ele permite que venham.
As coisas desparecem e Ele as deixa ir.
Ele tem, mas não possui
e age sem expectativas.
Quando seu trabalho está feito,
Ele o esquece.
E por isso ele dura para sempre.
(Tao Te Ching, cap 2)

 

O Sábio observa o mundo
mas confia na sua visão interna.
Ele permite que as coisas venham e vão.
Seu coração está aberto como o céu.
(Tao Te Ching, cap 12)


“Você pode lidar com os assuntos mais vitais
deixando os eventos seguirem seu curso?
(Tao Te Ching, Cap 10)


“Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte". (2 Corintios, 12)


P.S. "Se ela estava sozinha então quem tirou a foto?", você pergunta. Não, não foi o curupira. :) A mana Rosane esteve no Pocinho comigo também.


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DESFAZENDO E REFAZENDO NO UDDIYANA: EU E ROSANE - Texto da profa. Eliane Oliveira - 29/12/16

           

                    (Profa Eliane Oliveira no Uddiyana - 29/12/16)

           

                                   (Profa Rosane Oliveira no Uddiyana - 29/12/16)

Todo ano, entre o Natal e o Ano Novo, não há aulas no Uddiyana. Fazemos uma pausa das atividades. Anunciamos publicamente Recesso, mas essa não é uma boa palavra para descrever o enigmático ritual de magia que acontece nos nossos bastidores (na sala e na alma). Hoje será aqui confessado detalhadamente, sem mais segredos.

É preciso que você saiba: eu e Rosane assumimos a direção de uma cerimônia alquímica, que começa nessa casa de yoga, passa por nossa residência e volta para a casa de yoga, onde se finda. Sim, trata-se de um longo circuito. Compõe-se de dois momentos: o primeiro atende pelo nome de desfazimento e o segundo, por refazimento.

Vamos às etapas:

A fase do desfazimento deve ser iniciada de manhã, a poucas horas do nascer do sol. Num dos últimos dias do ano, já no Uddiyana, o rádio é sintonizado numa estação que toca música clássica. Posicionamos bancos de madeira com topo arredondado perto das paredes e neles subimos. Com os braços elevados e usando as mãos, começamos a desfazer os nós quase cegos das cordas suspensas nas paredes. Depois descemos dos bancos para desfazer outros nós das cordas presas em argolas mais baixo localizadas. São sete jogos de argolas com várias cordas nelas amarradas. Isso significa cerca de 40 desamarrações (ou mais) dos nós que nós (eu e Rosane) desamarramos (40, porque são nós dados por cima de nós já feitos para não serem facilmente desfeitos, quando nas cordas imprimimos peso). Beneficiamo-nos dessas cordas em nossa prática de yoga. Penduramo-nos nelas para nos alongar, afrouxando couraças musculares e liberando a passagem da energia vital pelo corpo. Era assim também que faziam os antigos yogues. E, ao tê-las em nossa sala, vivenciamos em nós os mestres. Salve!

Assim que terminamos de desfazer os nós das cordas, já soltas, desfazemos os rolos de espumas que envolvem as cordas. Eles serviram para amortecer o peso do corpo quando nos apoiamos nas cordas em algum exercício. O material - a espuma - vai se decompondo com o uso contínuo das cordas. E, a essa altura do ano, não estão mais intactas, mostrando sinais de decomposição. O que nelas desfazemos é o que está praticamente desfeito. São respeitosamente degredadas à caçamba de lixo.

Feito isso, é a vez de desfazer as cortinas. Significa: retirá-las dos varões que as seguram na parede. Ao todo, uns dez metros mais ou menos de tecidos, distribuídos em quatro varões na janela central, na janela lateral e na separação entre a recepção e a sala de prática. É um momento da cerimônia em que se deve tomar muito cuidado. Visto que são pesadas, ao retirá-las, arrisca-se cair do último degrau da escada em que se subiu para efetuar o procedimento. Em geral, as duas ministras da cerimônia se unem para concluir essa missão: enquanto uma escala a escada e retira as cortinas, a outra segura a escada e depois dobra as cortinas que, ao serem retiradas, ficam caídas no chão.    

A última parte do desfazimento consiste em desfazer a arrumação do material avulso usado nas aulas de yoga (tapetes, almofadas, tijolos, travesseirinhos para descanso dos olhos, mantas, entre outros), o qual está organizado numa estante vazada de ferro dentro da sala de prática, próxima à janela. Pomos tudo ao chão. Em seguida, depositamo-lo em grandes sacolas plásticas escolhidas para esse tento, tal como também o fizemos com as cordas e cortinas antes removidas.

A sala está nua agora. Em estado de vazio. Pronta para que o ilustre assistente oficial de limpeza do Uddiyana, o Sr. Carlos, adentre ao recinto para limpá-lo, capturando as sujeiras mais sutis, só percebidas com a sala desmontada. Quando não é o Sr. Carlos, é assistente de restauração - o Sr. Zé Roberto, a quem incumbimos a tarefa de pintar a sala periodicamente.

O período de desfazimento vai terminando quando começa a etapa do refazimento. Mas, entre o desfazimento e o refazimento, há o momento de passagem, quando investidas de braços e pernas, eu e Rosane transportamos as sacolas gigantes cheias de materiais, parceladamente, em algumas viagens via metrô, até nossa residência, recinto onde continua o ritual, em sua segunda fase.

Para o momento do refazimento, usamos algumas ferramentas iniciáticas: uma máquina de lavar, água, vassouras, sabão, esponjas, agulha, régua, tesoura, estilete, cola, alguns metros de espuma virgem em peça inteira de cor cinza. Nessa parte, o ritual se complexifica e, por isso, dividimos o ministério: enquanto uma de nós estende alguns tapetes numa área para esfregar esponjas e vassouras com água e sabão a fim de limpá-los, outra estende a peça de espuma no chão da sala para cortá-la em tiras pequenas e médias, colá-las em suas extremidades, confeccionando novos rolinhos que, em breve, envolverão as cordas dos kuruntas.

Concomitantemente a esse serviço, num compartimento mais recluso, a máquina de lavar, entidade sagrada independente, presta grande colaboração se revirando para a lavagem das cordas, mantas, cortinas e capas das almofadas. Por último, mas não menos importante, dedicamo-nos ao trabalho minucioso de abrir com delicadeza a costura de uma das pontas dos travesseirinhos de cetim para descanso dos olhos. Retiramos as ramas de alecrim que jazem dentro de cada um, depositando-as em pequenos sacos plásticos separados, e lavamos o cetim. Quando secos, recolocamos as sementes, atravessamos linha na agulha e os fechamos, um por um, seguindo a técnica ensinada pela grã-mestra e artesã Conceição Bandeira.

Decorrido alguns dias, após tudo limpo, seco e confeccionado, refazemos a viagem ao Uddiyana, no mesmo horário, para a consumação do refazimento. A cerimônia se reinicia com a música clássica no rádio. Então, desensacamos todo o material, o reconduzido e o refeito. Primeiro, as cordas. Colocamos as cordas no chão e organizamo-las em tamanhos iguais (há uma diferença de tamanho entre elas). Nelas, inserimos os novos rolos de espumas cinza. E então, subimos em bancos de madeira de topo arredondado e refazemos os nós sobre nós, que nós (eu e Rosane) anteriormente desfizemos, amarrando-as nas argolas. Refazemos os varões, pondo neles as cortinas. Refazemos a estante de ferro, reorganizando nela todo o material avulso usado para a prática de yoga. Olhamos para a sala. Agradecemos pela vida, pela oportunidade e pelo sucesso da realização, e nos despedimos dos mestres que nos acompanharam, e sempre nos orientam e nos guardam. Fechamos a porta, dizendo: Até daqui a pouco!

...

Amigos,

Essa é uma alegoria, é claro. Alegoria da transmutação que eu e Rosane vivemos quando escolhemos realizar o serviço de desfazer e refazer a sala em todo final de ano, no período que nomeamos por Recesso. Uma aura mágica para nós. Ao longo do ano, periodicamente, investimo-nos pessoalmente em outros momentos de recomposição do Uddiyana como esse, mas nenhum alcança a mesma dimensão. O simbolismo do final de ano, em preparação para iniciar outro, potencializa tal experiência, tornando-a uma espécie de ritual de purificação e transcendência para nós. Juntamente com o desfazimento de todas as coisas da sala, desfazemos o que está gasto e puído em nossas mentes e corações. Abrimos espaços internos a fim de acolhermos refazimentos, lugar vazio onde mora a plenitude dos novos e auspiciosos começos. No processo, sentimo-nos integralmente investidas em tudo o que há no Uddiyana: no ensino, na administração e também na própria parte física que ele representa.

Feliz desfazimentos e refazimentos para todos sempre!

Feliz 2017!

Obs. Mais fotos do "Ritual" no facebook: https://www.facebook.com/Uddiyana-Espa%C3%A7o-de-Yoga-1459086691012200/

Abraços,

Eliane e Rosane Oliveira

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   SOBRE MÚSICA, CEBOLAS E YOGA - por Profa. Eliane Oliveira - 13/11/16      

      

O nome é Polifonia. Diálogo entre duas ou mais vozes.

Fácil de observar ao piano: a mão esquerda dedilha notas e ritmos diferentes daqueles dedilhados pela direita. Por um lado, as notas em cada mão são livres e diferentes entre si. Por outro, cada uma, preservando seu cada qual, mistura-se simultaneamente com outra, deixando de ser cada para virar um todo, voz maior, terceira - a própria música. Se eu erro uma única nota ao tocá-la, a música toda se ressente. Porque cada nota carrega em si a música inteira, apesar de ser nota. Cada nota é o todo, apesar de ser parte. Há um acordo entre os lados: para um inteiro de música existir, eles devem ser cúmplices. Dá pra imaginar o que ambos os lados pensariam se pensassem: vale a pena abrir espaços em mim mesmo para abrigar um outro totalmente outro em prol de uma síntese, que não mais será nem eu nem o outro, mas um nós, um completo - a música. Sobre as teclas, note: a cena seria apenas caótica se o resultado melódico e harmônico não fosse tão sublime. Música Barroca. Essas que toco são de J.S. Bach. Século XVII. Invenção a duas vozes.

Tenho predileção por elas.

Gosto do ato amoroso de suas notas, que, desapegadas de si, buscam o mútuo entendimento e se arrumam em harmonia, apesar da sua pluralidade. A combinação que criam juntas é uma essência, um núcleo, um algo que resta como mais importante para as duas em meio ao amplo universo de coisas mais importantes para cada uma. Aquilo sem o qual sabem elas - não é possível nenhuma prescindir, pois que é sagrado para ambas.

Gosto do que nelas é, ao mesmo tempo, visceral, passional, intenso, abissal, espiritual. Soam-me como metáfora das combinações que nos fazem humanos essencialmente plenos, e também precários, provisórios, oscilantes entre desejos e aversões.

Lembram-me também meus alunos de yoga quando começam a se aprofundar na prática. A certa altura, percebendo que yoga não é apenas um exercício físico, mas um trabalho mais profundo que mexe internamente com eles (psíquica, emocional e espiritualmente falando), querem ter explicações sobre o que afinal está acontecendo. Essa é a hora de evocar a boa e velha imagem da cebola para ensinar algo da filosofia que nos orienta:

Pense numa cebola. Imagine que você é essa cebola, um todo feito de cascas e miolo. Para nós do yoga, você, pleno e realizado, é o perfeito entendimento entre você-cascas e você-miolo. Você-miolo é uma espécie de coração da cebola que interioriza suas cascas. Você-cascas é a ponte que exterioriza o seu miolo para fora das suas cascas. De modo que miolo e cascas, integrados, comunicando-se, já não são nem miolo nem cascas, mas cebola. Não há dualidade entre eles, mas unidade.­

Acontece que você, que é cebola (um todo), não se reconhece como cebola, mas como cascas e miolo separados. Você é ignorante de você-inteiro. Você entende suas cascas como escudos protetores de seu miolo e não como pontes para ele, e concebe seu miolo como algo que deve ficar protegido por suas cascas, e não ser ponte para elas. Repare: cascas que defendem miolo das adversidades da vida são as mesmas que também o defendem do que existe além das adversidades, incluindo as bonanças e as boas surpresas. Miolo, que é protegido pelas cascas, não pode influenciá-las nem se manifestar livremente através delas, mantendo-se adormecido e inerte no profundo delas. Em palavras mais diretas, o medo que você tem de confiar, de se entregar, de se revelar, de se expor, de (se) (re) inventar evita sofrer o fracasso e a dor, mas evita também a possibilidade do acerto, do desfrute, do receber, de ser feliz. Há uma separação em si mesmo que o faz desconhecer-se de si mesmo. E, enquanto for assim, você será sempre apartado, parte sem todo, mesmo que você-todo já esteja potencialmente em você.

Como o yoga pode ajudar? O yoga ajuda estimulando a integração (yoga=integração) das cascas com miolo para que a cebola se realize como cebola (você todo). Os lados que compõem alguma pessoa, tal como fazem a mão direita e a mão esquerda na polifonia musical de J.S Bach, devem estar dispostos ao diálogo. O segredo da plenitude do nosso ser é a combinação do complexo de vozes - cascas e miolo - que nos compõem em nome de uma síntese. Como a polifonia das notas ao piano, a síntese, uma vez havendo, transcenderá cascas e miolo e revelará o completo que sempre esteve ali - a própria cebola. Você.

Daí que concluo para o aluno:

O que está acontecendo com você é que, mediante trabalho físico e energético, vagaroso e amoroso, suas defesas, medos, egoísmos e apegos (cascas) estão ficando menos rígidos, começando a servir como pontes e não como obstáculos para passagem da energia abundante (miolo) que já existe em você. Somente com polifonia, será possível corpo ser energia e energia ser corpo, sem dualidades, sem conflitos. Ao longo do tempo - desejamos e acreditamos -, você há de se lembrar que sempre foi integração: Yoga.

OM. Isto é pleno. Aquilo é pleno. Do pleno surge o pleno. Se retirarmos do pleno tudo aquilo que é pleno, mesmo assim, o que permanece é pleno. (Cântico Védico, Purnamadah, In: Isa Upanishad)


Profa. Eliane Oliveira ao Piano: **** Importante
https://www.youtube.com/user/Eliane1057


*IMPORTANTE (Setembro de 2017): Resolvi apagar as músicas que havia postado no meu canal do youtube.Regravarei-as em breve com o piano mais afinado. Obrigada.

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      O PIANO EM MINHA VIDA: PAIXÃO E MEDITAÇÃO
               
(com alma de Amelie Poulain - 21/08/16)
Texto da profa. Eliane Oliveira

                  

Não sou uma pianista, mas toco piano desde os 12 anos de idade.

Tocar piano sempre foi para mim uma forma de meditação. Quando toco piano, param os meus pensamentos. Sou tragada para dentro da música. Não há mais “eu”. Só a música. Eu sou o instrumento dela. Sou o seu piano. Não sou eu quem a toco mas ela quem toca em mim. Ela toca-se a si mesma através de mim. Meu corpo é apenas um canal por onde ela passa. Empresto minhas mãos, braços, respiração, olhar, coração para ela passar. Tocar piano é uma experiência de entrega, de fluxo, de confiança. Você deve se deixar conduzir, se quer que a música seja.

Obviamente que, antes de deixá-la fluir livremente através de você, é fundamental saber tocá-la. Para isso, existe a técnica. É preciso estudar a partitura. É preciso exercitar os dedos com escalas e arpejos. É preciso repetir os movimentos muitas vezes. É preciso treinar a música insistentemente. É preciso voltar naquela parte da música que lhe exige mais atenção dada sua dificuldade. Isso sempre. Há uma mecânica. Há um trabalho. Mas, paradoxalmente, se se quer ouvir a música, após ter aprendido a técnica, deve-se abandonar a técnica. Quero dizer com isso: a técnica estará lá porque foi assimilada pelo corpo, mas não se pode pensar mais nela. Inicia-se o tempo da alma, quando a música se revela, para além de você mas com você. Algo espiritual.

Lembro-me que, ao longo do tempo, o piano e a música que toquei nele foram para mim tal como um mestre (ele) para seu discípulo (eu). Exerceram sobre mim uma função terapêutica, senão a própria cura através da arte. Pois, ao tocá-lo, era possível acessar áreas profundas da alma onde moram minhas sombras. A alegria, a tristeza, o prazer, a raiva, a saudade, matérias tão sutis, podiam ser, dependendo do caso, potencializadas ou expurgadas. Foi assim, por exemplo, toda vez em que estive apaixonada. Nunca consegui estar apaixonada sem tocar piano, ouvir música e fazer poesia. Ainda mais se o amor não era correspondido. Aí mesmo é que a música e o piano cabiam como a minha forma de expressão mais visceral.

E, foi por causa do coração doído fruto da frustração de um amor que não se desdobrou como eu imaginava que, recentemente, em janeiro deste ano (2016), trouxe o piano para morar comigo no meu apartamento. Ele, o instrumento –- um Essenfelder - nem sempre viajou comigo na minha jornada de vida. Ficou hospedado na casa dos meus pais em alguns períodos, e eu só tocava ao visitá-los. Mas, não tive dúvidas de trazê-lo para perto de mim agora. Era urgente. Estava apaixonada por um homem que não me correspondia, e, para acolher e transmutar minha tristeza, era preciso conectar minha essência e permanecer no meu centro, fechar os olhos, aquietar a mente e confiar. Meditação feita com a música ao tocar piano. Sobretudo quando tocava as doces linhas melódicas, dissonantes e polifônicas de Johann Sebastian Bach. Há nelas beleza, densidade e verdade, feito poesia. São vozes que parecem ser a minha e a de um outro, dialogando, encontrando-se, entregando-se, misturando-se, entendendo-se, amando-se. A vivência pura da não dualidade. O encontro e a dissolução de dois no Todo.

Sim, professoras de Yoga também se apaixonam e vivem oscilações de sentimentos e pensamentos. Mas elas conhecem também maneiras de voltar para o seu centro. Aprenderam essas maneiras com os antigos mestres através de outros mestres, e hoje ensinam essa sabedoria ancestral aos seus alunos, como se elas (professoras) fossem instrumentos musicais da Música (a sabedoria ancestral). Quanto mais praticamos Yoga, conectamo-nos com nossa essência, aquilo que está além do ego e que descansa tranquilo em nós: a felicidade. A felicidade já está realizada dentro de nós, mas somos tão ignorantes dessa verdade que passamos toda a vida procurando por ela lá fora. A prática do Yoga, progressivamente, nos deixa cada vez mais sensíveis e perceptíveis da vida abundante que temos pulsante em nós. Yoga é ele próprio meditação. Equilibrando corpo, mente e espírito, mais nos sentimos realizados e desejamos viver a vida com Vida. Adquirimos e/ou aprofundamos a consciência de que podemos experimentar o mundo com plenitude, integrando tudo o que somos. A arte é um caminho para esse autoconhecimento. Somos todos múltiplos em talentos. A Criação É em nós. Se acreditarmos nessa plenitude da alma, ela será livre, leve e solta. Feliz como ela já é.

O piano me salvou docemente, ajudando-me a guardar, com carinho e gratidão, a lembrança daquele amor não havido, embora querido. Mas ajudou-me também a deixá-lo ficar no tempo e memória boa, para que nossas vidas, a minha e a dele, caminhem para frente como deve ser, para o nosso bem.

Salve a saudosa Dona Maria Luisa Lima, grandiosa pianista e minha eterna professora de piano. Ela ainda está comigo me ensinando toda vez que toco (In Memorian).

Salve meus pais pela sua forte musicalidade e pelo incentivo aos filhos na vivência da música!

Salve meus mestres de yoga (em especial Prof. Paulo Murilo Rosas, com quem aprendi o Dakshina Tantra).

Salve todos os músicos e artistas, em especial o saudoso pianista, companheiro e amigo Alan Warszawski (In memorian).

Salve a Música! 

Salve o Amor!

IMPORTANTE (Setembro de 2017): Resolvi apagar as músicas que havia postado no meu canal do youtube.Regravarei-as em breve com o piano mais afinado. Obrigada.


      Comentários ao texto: eliane.martins.oliveira@gmail.com


Silêncio

Por Rubem Alves


“...conhecimento da fala mas não do silêncio,

conhecimento das palavras e ignorância da

Palavra...”

T.S. Elliot


     


Uma palavra sobe das funduras do nosso silêncio;

inesperada,

impensada,

emissária de um mundo esquecido,

perdido:

suspiro,

nosso mistério,

nossa verdade,

oração.

Há palavras que dizemos porque delas nos lembramos.

Possuídas, guardadas, ficam lá, `a espera,

e vêm, obedientes, como animais

domésticos...

Mas há palavras que não dizemos: elas se dizem,

apesar de esquecidas.

Não são nossas:

moram em nós, sem permissão, intrusas

e não atendem a nossa voz.

São como o Vento,

que sopra onde quer.

e não sabemos nem como veio nem para onde vai.

Só ouvimos o sopro.

Nós dizemos: só ouvimos.

Assim as palavras da oração, esquecidas:

elas se dizem.

Fica a surpresa de que um pássaro selvagem como aquele

que mora em nós sem que o soubéssemos.

A palavra que diz a nossa verdade não habita em nosso saber.

Foi expulsa da morada dos pensamentos.

Sua aparência era estranha, dava medo.

Agora habita em porões,

mais no fundo:

longe do que sabemos,

ali, onde não pensamos,

ao abrigo da luz diurna,

no lugar dos sonhos,

suspiros sem palavras.

Elas são tímidas.

Não se misturam.

Falam uma língua estranha.

Babel,

que não entendemos,

e dizem do ar frio das montanhas

e da escuridão dos abismos.

Mas somos moradores das planícies

onde todos falam para não ouvir...

Temos medo das palavras que habitam as bolhas submarinas.

Por isso falamos.

Matracas: ferro na madeira:

clate/clate/clate/clate/clate.

palavras

contra a

Palavra.

Horror ao silêncio: nele moram as palavras de que fugimos:

Sobem do fundo do mar quando se sabem sozinhas...

Ensina-nos a orar porque já não sabemos...

Quando orares

não sejas como os artistas de palco:

falam palavras que não são suas, de outros,

decoradas,

e os seus rostos não são rostos,

máscaras.

Não querem ouvir as próprias palavras

(porque são ocos, não as têm...).

Seus ouvidos só ouvem os aplausos:

moscas, prisioneiros de teias alheias...

Entra no silêncio,

longe dos outros

e ouve as palavras que se dirão

depois de uma longa espera...

Terias coragem de exibir tua nudez frente aos estranhos?

Eles irão rir...

Como, então, poderias orar na sua frente?

Oração, nudez completa,

palavra que sobe do fundo escuro

e revela...

Perante Deus...

somente ele tem olhos mansos o bastante para

contemplar a nossa nudez e continuar a dizer:

É muito bom que você exista...”

Nem mesmo nós...

Entra no silêncio

longe das muitas palavras

e escuta uma única Palavra

que irá subir do fundo do mar.

Uma única Palavra é mais poderosa que muitas:

pureza de coração é desejar uma só coisa...

Uma única Palavra:

aquela que dirias

se fosse a última a ser dita.

Basta ouvir uma vez e, então,

o silêncio...

Como Vênus, brilhante,

na imensidão azul do sol poente...

Antes que tu a tivesses ouvido,

o seu suspiro já reverberava pela eternidade...

Enquanto ela morava no teu esquecimento,

Deus já a ouvia

e tremia...

Faze silêncio..

Ouve...

Alves, R. Pai Nosso: Meditações, Edições Paulinas, São Paulo, 1987, p. 7-10. 40

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